sexta-feira, 27 de junho de 2014

Bicicleta é coisa de Pobre!

Certamente que muitos de vós já ouviu falar, e provavelmente até acompanha, a MariaBicicleta, um trabalho documental da autoria de Laura Alves (jornalista, co-autora da Gloriosa Bicicleta e, mais recentemente do Acreditar) e Vitorino Coragem (jornalista, fotógrafo e documentarista).

Ora, estava eu a ler a entrevista que a Ana Isabel Almeida (que é professora de informática) deu para a Maria Bicicleta quando...


« Os meus alunos perguntavam: 
“Mas a professora não vem de carro porquê ?” 
E eu dizia que não tinha carro. 
“Então e uma mota ?” 
Ou seja, achavam que andar de bicicleta era ser pobre »

Pois é... andar de bicicleta é sinónimo de pobreza e, todos nós sabemos que ninguém quer ser encaixado nessa categoria marginal e marginalizada a que se chama de “pobre”.

Porque ser pobre é mau. Mas pior, porque ser pobre, parece mal ... E então rodeamo-nos de coisas inúteis, para nos sentirmos menos pobres, ainda que sejam essas coisas inúteis que nos arrastam para um estilo de vida cada vez mais instável, em que os gastos são consideravelmente superiores aos ganhos e só um louco acha que sai a ganhar. No entanto, no que diz respeito à ostentação, sem dúvida que andar montado num BMW parece “menos pobre” do que andar de bicicleta e, todos sabemos que ter um bom carro é a afirmação de que se está a viver "the portuguese dream".


« Deve ser um gajo importante ! » - dirão uns.
« G’anda máquina! Aquilo custa mais que a minha casa!» - dirão outros.


E, onde quer que passe, despoletam admiração...







Quanto ao ciclista.
É pobre.
E como é pobre, ninguém quer saber.
E como ninguém quer saber, ninguém quer ser como ele.
Porque hoje em dia, todos querem ser reconhecidos.


Voltemos então à questão dos alunos da Ana.

Ora, a rapaziada achava que “andar de bicicleta era ser pobre”.

Mas, de onde é que vem esta ideia ?

Porque é que a bicicleta surge como sinónimo de pobreza, e o carro como demonstração inequívoca de riqueza ?





Na minha opinião, a resposta é simples: a sobrevivência de ideias pré-concebidas. Os anos passaram, o mundo evoluiu, mas os preconceitos entranharam-se de tal forma no imaginário comum que, quando vemos alguém num carro topo de gama, a primeira associação que fazemos é "carro topo de gama = bom ordenado = rico". E acreditem quando vos digo que estes preconceitos já vêm de trás... 




Se tivesse de apontar uma data ... diria algures no século XIX, altura em que surgiram os primeiros automóveis. Ora, nesta época, os automóveis não eram tão corriqueiros como actualmente e, a sua posse não estava ao alcance de qualquer um, sendo portanto um privilégio de uma elite endinheirada. Resumindo, o carro não era apenas um meio de transporte, era a materialização da ascensão capitalista e a melhor forma do seu proprietário mostrar a posição que ocupava na sociedade. Um símbolo de status social.


O que mudou ? Aparentemente nada. Continua a reinar o "mais vale parecer do que ser".

E este "culto" da aparência, continua a ser alimentado à mão, até um dia nos arrancar os braços. O carro é a ponta do icebergue. Mas, já não basta ter um bom carro.

Ilude-se quem acha que o facto de ter um carro o catapulta instantaneamente para o topo da pirâmide social. Sejamos realistas. Ter um Opel Corsa de 1990, não é o mesmo do que ter um daqueles carros que gritam " sou caro !!!! Vejam-me passar e invejem-me! ". O proprietário do Corsa continuará a ser "o pobre" (por vezes até alvo de troça por parte de alguns colegas que empenharam a mãe e o pai para comprar um carro a estrear), enquanto que o proprietário do carro caro, continuará a ser "o rico".
O status social não se altera pelo simples facto de ter um carro. Porque não basta tê-lo. Tem de ultrapassar em opulência os outros. E essa opulência é estimulada e incentivada.


Dou-vos um exemplo:
Recordam-se qual era o carro que conduziam quando estavam a ter aulas de condução ? 
Eu conduzia um Opel Corsa branco. 
Sem direcção assistida. Velho.




Actualmente já temos escolas de condução que possuem uma frota de luxo. 


E aquelas que nos dizem que "só anda a pé quem quer". Como se o andar a pé fosse uma coisa absolutamente estapafúrdia e que não faz sentido nenhum, quando se pode andar de carro.


E assim se promove o culto do inútil, a par da crescente apatia por tudo o resto que não seja o próprio umbigo.


Mas, vivendo em plena "era da informação", em que tudo está à distância de um clique, não posso evitar ficar admirada ao ver que há jovens que vivem desfasados da realidade e optam por perpetuar o estereótipo do ciclista pobre.

Basta fazer as contas.

Um artigo publicado no site Menos Um Carro, dá conta que « A média mensal dos encargos com os automóveis em Portugal é de cerca de €370, sendo que metade dos automóveis tem gastos superiores a €290 por mês ».

Mas há mais, de acordo com o João Pimentel Ferreira, programador que desenvolveu o programa AutoCustos:

“constata-se assim que parece que se trabalha meio ano para pagar o carro. Essa é grande irracionalidade. Do ponto de vista financeiro, seria exactamente o equivalente a trabalhar apenas em part-time sem possuir um carro”


Então... porquê o ciclista pobre ? 


Fará algum sentido afirmar que, entre duas pessoas que auferem o mesmo ordenado, uma é pobre e outra é rica (ou menos pobre) apenas com base no meio de transporte que utilizam ? 


E, ainda menos sentido fará se tivermos em conta que um se desloca a custo quase 0 (porque às vezes, também o ciclista tem despesas), enquanto que o outro tem uma despesa média de 270 € mensais.


Porque raio é que se perpetua então este ciclo ?

Porque interessa.

Interessa criar uma geração desinteressada e completamente alienada do mundo real.
Uma geração que consuma desenfreadamente e sem critério.
Uma geração dependente.
Porque o consumismo gera dinheiro.


O ciclista, em contrapartida ...

Como tem um estilo de vida mais saudável, raramente está doente. 
Como pedalar é um prazer, não hesita entre uma bela pedalada e uma tarde no shopping.
Como anda na rua, acaba por recorrer ao pequeno comércio.
Como tem bicicleta, não gasta combustível. 

Claro que haverá quem insista que « o ciclista não tem carro porque não tem dinheiro para o comprar »

Mas, será que o facto de ter dinheiro implica forçosamente que compremos, sem qualquer critério, tudo o que nos é "vendido" ?

Andar de bicicleta está longe de ser sinónimo de pobreza.

É um estilo de vida.
É uma afirmação de individualidade.
É romper com a prática do consumismo desenfreado.


Ser ciclista é ser pobre ?

Pois bem...então nesse caso vou gozar a minha pobreza enquanto pedalo tranquilamente pela ciclovia. 










Fontes:

















 






5 comentários:

  1. Excelente texto! Parabéns :)

    Como diria Gonçalo Cadilhe:
    “Vejo regularmente bicicletas a circular pelas ruas das cidades do planeta. Nos países pobres é um sintoma de subdesenvolvimento, nos países ricos é uma opção de desenvolvimento.”
    http://anossaterrinha.blogspot.pt/2010/05/elogio-da-bicicleta.html

    Abraço!
    Marcos Paulo Schlickmann
    http://transportacao.com/

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    1. Olá Marcos! Muito obrigado pelo teu comentário :)

      Espreitei também o teu site, mais precisamente o artigo « A esquerda neoburguesa e o automóvel ».

      Gostei bastante da forma como abordaste a questão, relacionando o incentivo ao consumo automobilístico com os interesses políticos em « mostrar ao ocidente malvado e explorador de classes que o “socialismo burguês” tropical ou português afinal funciona, pois todos são ricos e têm carro e casa no subúrbio, mesmo vivendo com baixos salários.

      * Aproveitei para partilhar o link para o artigo na página https://www.facebook.com/costureira.ciclista

      Abraço!

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    2. Obrigado Cátia Fonseca :)

      Sim, este tema muito me incomoda, ainda mais no Brasil, pois sou brasileiro. Quando a esquerda chegou ao poder em 2002 se esperava grandes mudanças, favorecimento da vida na cidade e respeito aos pedestres, bicicletas e transportes públicos.

      Infelizmente isso não aconteceu, houve um melhoramento mas não chegou nem perto do necessário.

      Abraço e continue o bom trabalho!

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  2. Olá Cátia. Gostei muito do post. E fiquei curiosa, onde é essa ciclovia? ;)

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    1. Olá Susana,

      Muito obrigado pelo teu comentário! Fico contente que tenhas gostado :)

      Quanto à ciclovia, fica em Bruxelas e foi uma das que percorri nas férias ciclo-turísticas de Maio :)

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